Os trilhos da Estrada de Ferro Central do Brasil e as jazidas de minério de ferro transformaram um conjunto de fazendas isoladas em um vibrante núcleo urbano. Esta é a história de como o ferro saiu da terra e chegou ao trem que fundou Sarzedo.
O surgimento do povoado que originou Sarzedo está ligado, como o de grande parte dos municípios mineiros, à exploração mineral. Enquanto no século XVII a busca pelo ouro determinou a interiorização do território, foi no século XX que a extração do minério de ferro e seu transporte pela ferrovia criaram as condições para o nascimento de um novo núcleo de povoamento.
Antes da ferrovia, toda a região era dominada por grandes fazendas de produção agrícola e criação de gado — entre elas, a Fazenda de Santa Rosa de Lima, que englobava todo o território hoje ocupado pelo município. Com a chegada dos trilhos em 1911–1912, tudo mudaria para sempre.
"Aos poucos, o trabalho da ferrovia na extração e no transporte do minério substituiu a agricultura e a criação de animais. A comunidade já não plantava mais nada. As chácaras foram morrendo no mato." — Depoimento de antigo morador
Da concessão imperial à inauguração da estação local: os marcos que fizeram dos trilhos a espinha dorsal do município.
Do ouro colonial ao minério de ferro industrial, a exploração mineral percorre toda a história de Sarzedo e moldou cada etapa do seu desenvolvimento.
No século XVII, a descoberta oficial do ouro impulsionou os bandeirantes paulistas ao interior de Minas Gerais. Em 1669, o território que mais tarde seria Sarzedo já aparece nos registros de ocupação da Comarca de Sabará. Os primeiros arraiais surgiram próximos aos cursos d'água, onde a lavagem do ouro era facilitada.
Com o declínio do ouro, a região encontrou no minério de ferro sua nova vocação. A chegada da ferrovia em 1911–1912 foi decisiva: os trilhos viabilizaram o escoamento do minério e transformaram a região em um polo logístico para toda a bacia do Paraopeba.
A partir de 1959, com a instalação da Itaminas, a mineração em Sarzedo assume escala industrial. Hoje o município abriga mineradoras de ferro que integram cadeias globais de produção siderúrgica, mantendo o legado histórico de uma terra forjada no mineral.
O Conjunto da Estação Ferroviária de Sarzedo, inaugurado em 20 de junho de 1917, não é apenas um monumento histórico — é o ponto zero da cidade. Foi a partir do seu entorno que o município se organizou linearmente, com as moradias dos funcionários na parte baixa e as casas particulares nas partes mais altas da encosta.
A estrutura original em madeira e tijolos, remanescente da era a vapor, ainda guarda as marcas da sua importância. A plataforma e parte do edifício principal foram preservadas e hoje abrigam exposições temporárias ligadas à memória ferroviária de Sarzedo.
A Itaminas Comércio de Minérios iniciou suas operações em Sarzedo em 1959, tornando-se a continuadora de uma tradição minerária que remonta ao período colonial. Com coordenadas exatas em -20.07, -44.11, a mina opera no coração do município, com capacidade projetada de 6.500 mil toneladas métricas por ano.
A empresa integra a Região Metropolitana de Belo Horizonte ao circuito global da mineração de ferro, conectando o território de Sarzedo às grandes siderúrgicas nacionais e internacionais. O debate contemporâneo sobre sustentabilidade e impacto ambiental coloca a Itaminas no centro das discussões sobre o futuro do município.
O legado da mineração em Sarzedo é ambivalente: foi o minério que criou a cidade, e é o minério que hoje desafia seus moradores a imaginar um futuro além dos trilhos.
Os vestígios físicos da era ferroviária que ainda marcam o território de Sarzedo e precisam ser preservados para as próximas gerações.
Remanescente da Estrada de Ferro Central do Brasil, inaugurada em 20 de junho de 1917. A plataforma e parte da estrutura original em madeira e tijolos foram preservadas. Tombada como patrimônio municipal.
Tombamento municipalConjunto de moradias construídas pela Estrada de Ferro Central do Brasil para abrigar seus funcionários. Localizadas na parte baixa da estação, representam o primeiro núcleo habitacional formal de Sarzedo.
Inventário culturalA lavra da pedra-sabão é uma das atividades minerárias mais antigas da região central de Minas Gerais. Transmitida de geração em geração, a técnica de trabalho com o esteatito é patrimônio imaterial da cultura mineira.
Patrimônio imaterialA malha urbana de Sarzedo ainda reflete a lógica da ferrovia: as ruas correm paralelas e perpendiculares aos trilhos, e o centro histórico coincide com o conjunto arquitetônico da estação — legado vivo de como os trilhos desenharam a cidade.
Em estudo de tombamento"Resultado da ocupação inicial do entorno da Estação Ferroviária construída no decorrer do início da segunda década do século XX, e inaugurada no final da mesma década, o antigo povoado foi transformado em município através da Lei nº 12.030, de 21 de dezembro de 1995."
— Câmara Municipal de Sarzedo · História de Sarzedo
O TCS é um dos mais importantes canais de logística ferroviária da região, responsável pelo carregamento, armazenagem e movimentação de minério de ferro e ferro gusa no Brasil.
Concebido para suprir a carência logística de exportação de ferro gusa e minério de ferro da região metropolitana de Belo Horizonte, o TCS foi construído pela Multimodal em parceria com a Link Logística Ltda, com apoio das empresas AVG Mineração, Operadora Logística e Global Mineração (grupo J. Mendes).
As operações tiveram início em novembro de 2006, conectando o eixo produtivo de Sarzedo diretamente aos portos do Rio de Janeiro via ferrovia MRS Logística — solução que se tornou estratégica diante do congestionamento nos portos de Vitória–ES.
O terminal opera nas linhas da MRS Logística, conectando Sarzedo aos portos do Rio de Janeiro para exportação de produtos minerais e siderúrgicos.
A MRS Logística é a concessionária responsável pela Malha Sudeste da antiga Rede Ferroviária Federal — os trilhos que passam por Sarzedo e conectam o município ao mundo. Criada em 1996 durante o processo de privatização da RFFSA, a empresa opera 1.643 km de ferrovia distribuídos entre Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
É por essa malha que o minério extraído e processado em Sarzedo chega aos portos de Rio de Janeiro, Itaguaí e Santos, seguindo para os mercados internacionais. A ferrovia que nasceu para trazer o progresso ao então vilarejo em 1917 continua, mais de um século depois, sendo a principal artéria econômica do município.
A malha sudeste passa para a Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA), que absorve a Estrada de Ferro Central do Brasil e seus ramais — incluindo a linha que serve Sarzedo.
No leilão de privatização da RFFSA, a MRS Logística S.A. arrematou a concessão da Malha Sudeste por 30 anos, assumindo a operação de 1.643 km de ferrovia entre MG, RJ e SP.
O Terminal de Cargas de Sarzedo (TCS) entra em operação nas linhas da MRS, consolidando Sarzedo como ponto estratégico de carregamento ferroviário de minério e ferro gusa com acesso direto aos portos do Rio de Janeiro.
Renovação antecipada da concessão com o governo federal, garantindo à MRS a operação da malha até 2056, com investimentos comprometidos em infraestrutura, tecnologia e capacidade operacional.
A MRS instala em Sarzedo um formatador de cargas — segundo equipamento do tipo em operação em todo o país. A tecnologia otimiza o carregamento dos vagões, reduz perdas de minério e aumenta a eficiência operacional do terminal.
No 1º trimestre de 2026, a MRS registra 46,3 milhões de toneladas movimentadas — crescimento de 2,5% sobre o mesmo período de 2025 — com investimentos de R$ 753,6 milhões no trimestre, alta de 19,6% ao ano.