Durante décadas, a história das primeiras famílias que habitaram o território de Sarzedo permaneceu fragmentada em memórias orais e poucos registros físicos dispersos por arquivos regionais. Esse quadro começa a mudar com a conclusão do primeiro ciclo de digitalização de documentos do Arquivo Público Mineiro (APM), que disponibilizou ao Memória Viva Sarzedo um conjunto de 847 páginas manuscritas datadas entre 1843 e 1902.
Os documentos incluem registros de batismo da antiga Paróquia de Santo Antônio de Itaúna, cartas de aforamento emitidas pela Câmara Municipal de Betim (à qual o território pertencia antes da emancipação), inventários post-mortem e correspondências entre pequenos fazendeiros e a administração provincial. Juntos, eles oferecem a primeira visão sistemática das redes sociais, econômicas e familiares que estruturaram a comunidade local antes da emancipação de 1994.
Famílias pioneiras identificadas
A análise preliminar conduzida pela equipe de pesquisa do portal identificou 34 sobrenomes recorrentes nos registros, dos quais ao menos 12 ainda têm descendentes rastreáveis na cidade. Os registros de batismo revelam que a maioria das famílias fundadoras era oriunda das margens do Rio Paraopeba e das regiões de Igarapé e Mateus Leme, com alguns núcleos migrando de áreas de garimpo exaurido em Sabará e Nova Lima ao longo das décadas de 1850 e 1860.
Entre as famílias com maior presença nos documentos estão os Ferreira Nunes, que detinham extensas áreas de pastagem ao longo do Córrego São Mateus, e os Ramos Pinheiro, cujos registros de batismo apontam para uma rede de compadrio que incluía figuras proeminentes da política de Betim. Surpreendentemente, os documentos também registram a presença de pelo menos três famílias de origem portuguesa que migraram diretamente de Coimbra e do Porto entre 1855 e 1870, atraídas pela disponibilidade de terras baratas no interior mineiro.
"Esses documentos são o DNA escrito da cidade. Cada registro de batismo é um fio que, quando puxado, revela toda uma teia de relações que explica como Sarzedo se tornou o que é hoje."
— Dr. Márcio Cavalcante, historiador, UFMG · Consultor do projeto
Migrações e o papel do Rio Paraopeba
Um padrão que emerge com clareza dos registros é a centralidade do Rio Paraopeba como eixo organizador das migrações e da ocupação territorial. As cartas de aforamento mostram que as primeiras concessões de terra foram feitas quase exclusivamente ao longo das margens do rio e de seus principais afluentes na região, seguindo uma lógica de acesso à água para lavoura de subsistência e criação de gado.
As correspondências entre fazendeiros e a Câmara de Betim revelam também disputas frequentes por direitos de uso da água, indicando que o crescimento demográfico ao longo das décadas de 1860 e 1870 criou pressões significativas sobre os recursos hídricos locais — uma tensão que, em certa medida, prefigura os desafios ambientais enfrentados pela região nos séculos seguintes.
A questão da terra e os primeiros conflitos
Os inventários post-mortem são particularmente reveladores sobre a estrutura fundiária da época. A análise de 23 inventários localizados nos registros mostra que a maioria das propriedades era de pequeno e médio porte, com áreas entre 5 e 40 alqueires, cultivadas principalmente com milho, feijão e cana-de-açúcar para produção de cachaça artesanal. Apenas três inventários registram propriedades superiores a 100 alqueires, sugerindo que, ao contrário de outras regiões mineiras, o território de Sarzedo não foi marcado pela grande propriedade latifundiária desde sua origem.
Escravidão e alforria nos registros
Os documentos também registram, de forma inevitável, a presença da escravidão na formação social do território. Os registros de batismo incluem dezenas de entradas referentes a crianças nascidas em cativeiro, identificadas pela ausência do sobrenome paterno e pela anotação do nome do proprietário. Ao menos 14 cartas de alforria foram localizadas entre os documentos, datadas principalmente da década de 1880, no contexto da pressão abolicionista que culminaria na Lei Áurea de 1888.
Esses registros abrem uma janela importante para a compreensão das raízes afro-brasileiras de parcela significativa da população sarzedense contemporânea. O projeto Memória Viva Sarzedo está em contato com pesquisadores de genealogia especialistas em história afro-mineira para ampliar a análise desta parcela do acervo.
Próximos passos da pesquisa
A equipe de pesquisa do portal planeja dois desdobramentos imediatos. O primeiro é a criação de uma árvore genealógica interativa das principais famílias pioneiras, que permitirá aos moradores da cidade conectar seus próprios sobrenomes às redes identificadas nos documentos. O segundo é um ciclo de entrevistas com famílias que reconhecerem seus ancestrais nos registros, combinando a evidência documental com a memória oral ainda viva na comunidade.
Os documentos digitalizados já estão disponíveis para consulta pública no Acervo Digital do portal, na categoria "Documentos Fundadores". O acesso é gratuito e aberto a pesquisadores, estudantes e qualquer cidadão interessado na história de Sarzedo.



